Resenha | Madame Bovary



Livro: Madame Bovary
Autor (a):Gustave Flaubert
Páginas: 385 (na minha edição)
Editora: várias
Classificação:     
Sinopse: Considerado por muitos críticos e estudiosos como a maior realização do romance ocidental, 'Madame Bovary' trata da desesperança e do desespero de uma mulher que, sonhadora, se vê presa em um casamento insípido, com um marido de personalidade fraca, em uma cidade do interior. Publicado originalmente em capítulos de jornal, em 1856, o romance mostra o crescente declínio da vida - interna e externa - de Emma Bovary, que figura na literatura ocidental no mesmo degrau que Dom Quixote, o personagem de Cervantes. Ambos não se conformam com a realidade em que vivem e tanto o cavaleiro da triste figura quanto a desolada dona-de-casa oscilam entre o status de herói e de anti-herói.


Madame Bovary é sem dúvida a obra-prima de Gustave Flaubert (1821-1880), escritor francês que como nenhum outro na literatura ocidental levou o estilo à perfeição, reescrevendo inúmeras vezes o texto e procurando, como um artesão, o melhor encaixe das palavras. Flaubert identificou-se de tal forma com a sua protagonista que declarou: 'Madame Bovary, c'est moi' (Madame Bovary sou eu). Na sua maior obra, o escritor atingiu um grau de penetração dentro da mente da personagem principal como nunca ocorrera até então e abriu caminho para as aventuras psicológicas dos modernistas como Virginia Woolf, Marcel Proust, Clarice Lispector e James Joyce. Não por coincidência, Proust considerava Flaubert como um escritor de ruptura, por ter dado sentido e substância ao romance de análise psicológica.


Nenhum livro me doeu, me contorceu, me devorou, me desgastou tanto como Madame Bovary. Acreditem, nada me assusta mais que o fantasma de Emma Bovary! Ahhh com certeza vi muitas protagonistas sofrerem, com certeza chorei por muitas, com certeza me enfureci com muitas, mas nenhuma me deu tanto medo de que houvesse em mim algo de Emma!

A história é muito simples, mas os sentimentos dessa mulher não. Flaubert é o primeiro a mostrar de forma tão clara, tão nua, o pesadelo da alma de uma mulher perdida entre o sonho e a fantasia. Ele mergulha na alma de Emma, e o que vemos não podemos negar que são sentimentos extremamente dolorosos e comuns.

Para que vocês entendam essa mulher, vamos trazer Emma para os nossos dias, imaginem que Emma é uma menina do interior. Mas não de uma cidade do interior, imagine uma que viva numa fazenda, dessas que mal tem luz elétrica algumas horas por dia. Ela vive cercada de poucas pessoas, todas elas ignorantes como ela, brutas e secas. Sem acesso a educação, internet ou qualquer coisa que lhe mostre o mundo exterior, mas que nas poucas horas do dia em que a energia chega à propriedade ela usasse para assistir novelas. Imagine que tudo que ela sabe e pode imaginar sobre o mundo em que vivemos são as novelas da Globo. E essa menina vive para esses momentos em que a luz chega e as novelas começam.

Agora imaginem que um dia chega a essa fazenda um médico! Ele não é bonito, nem elegante, nem nada de especial, mas se veste diferente das pessoas dali, tem um cheiro melhor, está barbeado e tem modos bem mais refinados. Ele se parece com as pessoas das novelas muito mais do que qualquer um que ela já viu, e, ainda por cima, ele se encanta pela jovem, bela e sonhadora Emma. Ele promete levar ela dali para o mundo em que ela vê na TV!

O que vocês acham que essa menina sentiria? Vocês acham que ela entenderia quem ele era, ou veria nele uma espécie de príncipe salvador?

Emma acredita que será salva, e levada dali para viver uma conto de fadas como o das novelas. Mas o que acontece é que vai parar numa cidade pequena, onde tudo é difícil, onde a vida em nada se parece com as novelas (afinal, a vida não é parecida com as novelas). E descobre que seu marido, de príncipe não tem nada! É só um pobre infeliz!

Deu para entender?

Claro, Emma não viveu nos nossos dias e as "novelas" que ela tinha acesso eram os livros do auge do romantismo europeu (o que sem dúvida é uma crítica de Flaubert a outros escritores de sua época). Apenas usei essa analogia para ficar claro para vocês quem é essa mulher!

Não é um livro fácil de ler! Nem por sua linguagem, muito menos por seu conteúdo. Mas se você tem coragem, não tem como esse livro não mexer com o leitor e não projetar diversas reflexões sobre nós, sobre o mundo, sobre tudo!!!

A história poderia acabar assim, como acaba a de milhares de pessoas: Emma ao se deparar com a realidade se viu infeliz e frustrada, e foi mais uma mal amada até o fim dos seus dias, cuja maior diversão é falar mal da vida alheia.

Mas Emma é guerreira e não desiste de sonhar! Apesar da dureza da realidade, ela não para de sonhar! E isso é tão lindo, romântico e encorajador e ao mesmo tempo tão louco, doentio e irracional. Porque Emma não tem limites, não tem parâmetros, não tem qualquer noção do mundo, da maldade, da mentira e do quanto bem e mal podem ser faces diferentes de uma mesma moeda.

Emma sonha com o amor, sonha com o luxo, sonha com romance, aventura, sonha com amantes, sonha com prestígio, sonha com sucesso... ela sonha! E ela busca em cada rosto a realização de seus sonhos, e ela faz isso sem perceber o preço que está infligindo a seu marido e a si mesma. Ela sonha como uma criança louca, tola e cruel.

Charles Bovary não é mal, ele ama sua esposa, mas ele não é um herói. Ele não é inteligente, ou espirituoso, ou engraçado, ou divertido, ou rico e muito menos sexy. Ele é um cara normal, apesar de Flaubert ser bem crítico com ele, o fazendo parecer especialmente idiota, não consigo ver Charles assim. Ele é enganado, explorado, por vezes insultado e humilhado e não toma nenhuma atitude. Ele é uma figura triste. Mas não é assim que somos quase todos? Quer dizer, a gente reclama, mas não acata grito de chefe, fofoca de vizinha, fechada no trânsito, grosseria de vendedor, esbarrão de estranhos, o correio que some com encomendas, e político corrupto? Será que temos o direito de criticar o conformismo e a imobilidade de Charles? 

É verdade, Charles não entende sua esposa, ele nunca age, e quando age, o faz da forma errada. Mas eu sou a pessoa certa para julgá-lo?

Não sei! É só mais uma das muitas questões que me faço sempre diante desta obra!

Assim como sempre me pergunto, onde acaba o sonho e começa o devaneio? Será que somos capazes de diferenciar quando estamos de fato lutando por um objetivo ou apenas nos iludindo? Nos livros, nos filmes, nas séries... não importa onde, a perseverança é vista como virtude! Nunca abra mão dos seus sonhos! Lute! Emma faz exatamente isso, ela luta até o fim para ser feliz.

Emma também não é uma pobre santinha. Ela vai mentir, trair, enganar, manipular e usar dos meios mais sórdidos para lutar pelos seus sonhos. Ela vai fazer seu marido ser humilhado, massacrado, desmoralizado e empobrecê-lo sem limites para atender meras futilidades. Emma não tem uma gota de escrúpulo naquele corpinho!

Ah Emma! Ela  que ainda acredita que o jovem, belo e rico príncipe encantado existe e que vai aparecer! Ela que se apaixona uma, duas, diversas vezes por homens sedutores que lhe prometeram tudo e que partiram sem lhe deixar nada. Homens que só queriam a usar, a roubar e depois jogar fora. Ela acreditou em todos eles!

Ou será que não acreditou? Existe um momento do livro em que você vai se perguntar, e se o amor da vida fosse um jovem, belo, inteligente, divertido e sexy pobre? O que atrai mais Emma? O amor ou o dinheiro? Seria ela tão ingênua assim ou na verdade uma mulher frívola e interesseira?

Na época em que o livro foi lançado (ele foi publicado originalmente em capítulos num jornal), os leitores não tiveram dúvida em acusar Emma de interesseira e imoral. Veio do próprio autor a defesa de que Emma era apenas uma mulher infeliz e insatisfeita com a sua vida caminhando na beira do abismo.

Por isso ela me assusta, me assusta quando me pego fazendo planos cheios de esperança, fantasiando um futuro, sonhando... sonhando... Como viver sem sonhos? Mas como estar pronta para acordar quando o despertador da realidade toca para dizer que está na hora? Você tem certeza de que é uma pessoa feliz e otimista e não Emma Bovary?

Deixo a questão para vocês decidirem!

Beijos e até a próxima!




Proxima
« Anterior
Anterior
Proxima »

Querido leitor,

Seus comentários deixam o nosso cantinho ainda mais especial. Agradecemos muito a sua participação! Até o próximo post! ;)

Equipe do Citação
ConversãoConversão EmoticonEmoticon

Obrigado pelo seu comentário